• Kalinka Araneda

A cólica, a friagem e a sabedoria da minha avó

Como eu encontrei na Ginecologia Natural e na compreensão do meu ciclo menstrual o alívio para as minhas cólicas



Desde que eu "fiquei mocinha", ou seja, tive a minha primeira menstruação, eu conheci essa grande amiga que me visita todos os meses, a cólica menstrual. Ela é tão fiel que não esqueceu de vir nem uma vezinha ao longo desses quase 20 anos menstruando - e algumas vezes ela vinha de mala e cuia pra passar uns dias comigo. Lembro que a minha menarca (primeira menstruação) veio quando eu tinha apenas 11 aninhos e, logo nas primeiras horas, embora ainda confusa e envergonhada com a novidade, logo entendi que o grande problema de menstruar não era colocar o absorvente ou tentar usar roupas largas pra que ninguém percebesse minha "situação", mas sim aquela dor infernal que começava nas costas e terminava no pé (ou na alma).

A minha mãe vinha com chazinho daqui, chazinho acolá, e o "paninho quente" - um pano gentilmente aquecido no microondas e colocado no baixo ventre. Eu achava tudo isso bobagem, já que ela complementava o ritual com Atroveran, que logo não adiantava de nada, e evoluiu para Feldene e Buscofem.


Quando a menstruação ia embora e, com ela, levava a cólica, eu nem me lembrava que elas existiam por, no mínimo, uns 28 dias. No auge da minha juventude, lembro de várias vezes revirar os olhos quando a minha mãe gritava "Menina, põe sapato, não anda descalça que pega friagem. Depois vai ficar morrendo de cólica aí". "Menina, não sai de cabelo molhado, coloca a blusa, depois não diga que não avisei". Eu achava graça e entendia que ela reproduzia o comportamento que a minha avó tinha com ela - mas eu, como adolescente da Geração X, sabia que isso tudo não passava de crendice popular.


Como na música, o tempo passou e eu sofri calada, tentando aplacar a dor aumentando a dose dos remédios e fazendo mil exames ginecológicos invasivos. Mas o que foi dito para mim é que era "normal". Com o tempo, deixei de lado os mimos e paninhos quentes da minha mãe para investir pesado nos analgésicos. Melhorava, isso é verdade. Mas apenas por um tempo.

Até que eu fui morar sozinha, aos 25 anos, e em uma bela noite do auge da minha independência, adivinha quem descobriu meu endereço e foi me visitar? Ela mesma. Senti a pior cólica da minha vida e estava sem mãe, sem companhia e, principalmente, sem remédio. Não conseguia sair para ir comprar de tanta dor, então me lembrei do velho paninho quente. Fui rastejando para a cozinha e esquentei e toda vez que esfriava eu esquentava de novo e colocava. Aproveitei e fiz um chá de camomila e ouvi um pouco de Jeff Buckley para complementar o cenário de dor e solidão (risos). Demorou bem mais do que o remédio para passar, isso é verdade. Mas o mais impressionante foi: não voltou. Simplesmente foi embora. No dia seguinte até comprei remédio mas não precisei usar.


Desde aquele dia, eu parei de tomei remédios para cólica para sempre.


Mentira. Claro que não! Vira e mexe tomo um comprimidinho, porque ninguém é de ferro, né?! Mas desde aquele dia comecei a prestar mais atenção no meu corpo e entender que o calor era sim uma ferramenta poderosa de auxílio para a MINHA dor. Assim como deixar o chuveiro ligado por alguns minutos no local. Assim como o chá de camomila. E, principalmente, o colinho da mamãe ou de algum querido(a). Comecei a criar o meu próprio ritual de acolhimento durante a cólica, percebi que eu não precisava me entupir de remédio para ir trabalhar ou para ir para a balada, que não tinha problema se eu me recolhesse nesses dias. Comecei a não odiar a minha menstruação e sim a perceber como me sentia bem e mais aliviada quando ela chegava. Agora a cólica, bem, não tem como gostar dessa bandida, né?! Mas a gente convive numa boa. E eu hoje, por via das dúvidas, coloco meia e levo sempre o agasalho para evitar a friagem. Se evita cólica eu não sei, mas dificilmente pego gripe ou resfriado.


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 © 2018 criado por Kalinka Araneda

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